quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Um presente para os visitantes

Um presente para os visitantes No centro de São Gabriel da Cachoeira há uma grande loja que comercializa artesanatos indígenas. A mulher que atende aos clientes pertence a uma das diversas etnias nativas da região, mas não produz artesanato, faz apenas o comércio de peças adquiridas junto às comunidades tradicionais. Enquanto visitava sua loja, notei que ela ainda é bastante jovem e muito atenciosa. Ela me atendeu com educação e muita simpatia, mas senti que se colocava em uma posição de distanciamento como se estivesse a confrontar-se com uma representante de um povo adversário. É natural do ser humano em cidades isoladas. Precaução e sopa não fazem mal a ninguém. Eu não sou daqui, portanto, me considera uma estranha. Embora eu tenha nas veias o sangue da etnia Caingang, uma nação sulista, sobre a qual ainda não falei e que talvez ela pouco saiba a respeito. Não existe tensão entre nós, mas uma expectativa angustiante e recorrente, sempre que pessoas de povos nativos se deparam com as primeiras apresentações e as revelações sobre nossas origens. Vou chamar esta mulher de Maria, seu nome fictício para o desenrolar desta história. Maria se aproxima, sorri e graciosamente oferece ajuda. Eu não imaginava que teria de me apresentar, mostrar minha cara, falar sobre a minha vida, pois estava apenas visitando uma loja, como faria em qualquer lugar do mundo, mas aqui me sinto ainda mais diferente, uma cliente especial. Sinto-me vigiada. Não imaginava que fosse chamar a atenção numa cidade onde 90% da população possuem traços indígenas. Estou em uma ilha de florestas e rios, povoada por diversos povos originais das américas, mas não pertenço a nenhuma das etnias desta região, embora sendo de um mesmo país. Sou uma estranha e por onde eu andar, embora estando numa cidade povoada em sua esmagadora maioria por indígenas, ainda sou uma estranha, como se estivesse no Rio de Janeiro, em Sorocaba ou São Paulo. Enquanto eu olhava na loja de Maria as preciosas obras artesanais das diversas etnias de São Gabriel, a loja foi invadida por um grupo de índios eufóricos e barulhentos dizendo precisar, urgente, de algum objeto para doar como souvenir, um agrado, um presente, para uma importante autoridade que chegara de Brasília, a capital do Brasil. Maria montou um kit com um cesto feito com folhas de palmeiras e um vaso de cerâmica produzido manualmente por um de seus diversos povos e culturas desta imensa comunidade indígena brasileira. Este episódio não sai de minha cabeça e fica a ilustrar todo o conhecimento que fui adquirindo enquanto pesquiso sobre a viagem de Sorocaba, no interior de São Paulo a São Gabriel da Cachoeira dia 27 de setembro passado. A negociação dos presentes na loja de Maria levaram meus pensamentos para dois séculos e meio atrás, aos anos 1760. Graças ao estudo de um cientista dos EUA chamado Robin M. Wright, que vive no Brasil e leciona na Unicamp, uma importante universidade brasileira. Wright é o primeiro cientista a estudar e a confrontar os relatos originais de antigos estudiosos à história oral dos povos atuais de São Gabriel. Ele constatou que toda a história que os povos remanescentes passam de pai para filho pode ser comprovada através de cartas e relatórios de oficiais da Coroa Portuguesa e de empresas particulares que navegavam pelo Rio Negro e seus afluentes para capturar e escravizar indígenas. Sim, a Coroa portuguesa também terceirizava o serviço de captura para empresários portugueses. Muitos destes empresários e os próprios oficiais do império usavam a tática de dar presentes aos índios, principalmente bebidas alcóolicas para conquistar a sua simpatia e fazê-lo pagar traindo o seu próprio povo ou levando-o à guerra contra povos vizinhos. Desta forma, colocavam Tukanos contra Barés e estes contra os Baniwa e assim enfraqueciam os exércitos guerreiros e enchiam os navios de escravos indígenas. Este texto de Robim Wright eliminou a dúvida que me atormentou quando coloquei os pés nas ruínas do Morro da Fortaleza e fiquei a indagar sobre quantos índios teriam trabalhado e morrido para erguer um edifício que seria a sua própria prisão? A pergunta está errada. O certo seria questionar quantas guerras entre índios aquelas fortificação assistiu até virar escombros. É certo que para chegar até o Alto Rio Negro os oficiais da Coroa tiveram primeiro que derrotar os índios Manaos, que habitavam a região onde hoje está a cidade de Manaus, a capital do Estado do Amazonas. E assim podemos ter uma ideia da grandiosidade das histórias ocultas desta linda região. O que não fariam os cineastas de Hollywood com as anotações do professor Wright? União de forças As guerras entre índios acabaram quando todos foram derrotados. A partir de 1985, com o fim do governo militar do Brasil e quando o Congresso Nacional estava prestes a redigir uma nova Constituição, os indígenas de todo o País começaram a se organizar e a cobrar por seus direitos, principalmente à demarcação de suas terras e a expulsão de invasores e suas fazendas de gado, café, cacau ou cana de açúcar. Em São Gabriel não existe mais guerras entre índios, hoje eles estão juntos na Federação das Organizações Indígenas do Alto Rio Negro (FOIRN). A entidade foi fundada em 1987 e reúne 90 associações de 23 povos originários de três municípios da região. Juntos ele constituem uma rede de agentes indígenas de manejo ambiental (Aimas) monitorando o clima e o meio ambiente na Bacia do Rio Negro. Promovem estudos interculturais e valorizam o conhecimento dos mais antigos sobre o território onde vivem. Hoje eles compartilham um plano de gestão territorial e ambiental (PGTAs) onde estabelecem metas para o presente e futuro em seu território ancestral, muito antes da chegada dos portugueses, e atualmente terra indígena demarcada de acordo com a Constituição de 1988. Mas, o atual governo brasileiro com maioria dos deputados e senadores do Congresso Nacional, comprados através de dinheiro público desviado de funções básicas, vem ameaçando insistentemente os povos indígenas e outras minorias que vivem em reservas da União. As terras demarcadas, embora sejam definidas como Terra Indígena, são de propriedade da União e, portanto, basta uma mudança na Constituição para abrir suas fronteiras à exploração de garimpeiros, madeireiros e outros invasores. O garimpo e o agronegócio são os dois principais inimigos dos povos indígenas e do meio ambiente na Amazônia brasileira e nos países vizinhos. Por onde andamos nesta região avistamos grandes caminhonetes SUV, principal símbolo dos fazendeiros, e nela identificamos o homem que está à espreita para entrar em nossas terras com tratores e colheitadeiras para exportar grãos que serão transformados em ração para o mundo. Um dos maiores exportadores mundiais de grãos e de carne do mundo, o Brasil tem 19,1 milhões de pessoas passando fome segundo estudo da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Pessan) divulgado em abril deste ano. São quase 20 milhões de brasileiros afirmando que passam períodos de 24 horas sem ter o que comer. Cerca de metade da população – 116,8 milhões de pessoas – sofre atualmente de algum tipo de insegurança alimentar. “O Brasil continua dividido entre os poucos que comem à vontade e os muitos que só têm vontade de comer”, afirmam pesquisadores da entidade. Em São Gabriel da Cachoeira 5.888 pessoas recebiam Bolsa Família e Seguro Defeso (pago para pescadores na temporada de desova dos peixes, a piracema), dois benefícios em dinheiro concedido pelo governo federal, segundo pesquisa do IBGE de 2013, A cidade tinha uma população de 41,575 pessoas. Este ano o benefício da Bolsa Família foi substituído por outro para ficar colado à imagem do atual presidente de extrema direita que foi eleito com um discurso copiado do norte=americano Donald Trump e usando o seu mesmo método de espalhar fake news para destruir a imagem de seus adversários. Jair Bolsonaro, chamado na Europa de Jail, disse durante sua campanha eleitoral que seu governo não daria mais nenhum acre de terras para os indígenas. Só não disse que, além de não dar ainda fosse retirar. O resultado foi que neste ano o Brasil e o mundo tiveram que testemunhar mais uma temporada recorde de queimadas na Amazônia, no Cerrado e na Mata Atlântica, três de seus mais importantes ecossistemas. O governo desmontou os órgãos de controle e fiscalização deixando as porteiras abertas para a invasão e a destruição. O discurso deste presidente agrava um cenário muito ruim para pretos, pobres e indígenas ou qualquer pessoa que seja diferente como gays e negros quilombolas, que vivem em terras ocupadas desde a escravidão. Estamos todas vulneráveis aos atos de autoridades e até de cidadãos comuns que se dedicam ao racismo e são ávidos por praticar a violência contra pessoas que eles consideram animais. É muito difícil ser indígena num país que foi tomado dos indígenas.

Uma visita ao forte de guerra

Uma visita ao forte de guerra que foi destroçado sem nunca guerrear Construído por mãos de nativos escravizados, fortificação deu origem a São Gabriel da Cachoeira, cidade cuja população é predominantemente original do Brasil e fala quatro idiomas além do português. Iracema Forte Caingang No alto do Morro da Fortaleza, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela, oficiais da Coroa Portuguesa construíram em 1763 uma fortificação destinada a combater eventuais invasores espanhóis. Esta obra pode ser considerada a origem do hoje município de São Gabriel da Cachoeira, a 850 km de Manaus por via aérea ou 1 mil km subindo o Rio Negro, no extremo noroeste brasileiro. Do velho forte restam apenas ruínas de onde podemos apreciar o Pico da Neblina, ponto mais alto do Brasil com 2.995 metros de altura e a Serra da Bela Adormecida, formação rochosa que lembra o sinuoso corpo de uma mulher em repouso. A paisagem de São Gabriel da Cachoeira, as praias de areias claras do rio Negro e a história da ocupação do território já foram demasiadamente expostas e descritas por inúmeros retratos e relatos dos mais poéticos aos mais dramáticos. Portanto, o que eu pretendo neste texto é apenas relatar a minha experiência como mulher de uma das dezenas de etnias nativas do Brasil em sua primeira viagem a um município que é, ao mesmo tempo, a maior concentração de povos originários e de idiomas nativos em um só território. Ou seja, São Gabriel seria uma grande aldeia de múltiplos idiomas e culturas originais de um espaço das Américas a que os conquistadores estrangeiros deram o nome de Brasil por causa de uma madeira que produz tinta vermelha (brasa) encontrada em seu litoral no Oceano Atlântico. conhecer este perfeito laboratório científico e paraíso natural encravado no coração da Selva Amazônica. São Gabriel da Cachoeira é o terceiro maior município do Brasil em extensão territorial com 109. 185 km². É maior do que vários países como Hungria, Portugal, Coreia do Sul, Azerbaijão e Áustria. Sua população é estimada em 42 mil habitantes, entre os quais pelo menos 90% pertencem a uma das mais de 20 etnias de povos originários americanos e pelo menos 20% prestam seus serviços para uma das unidades das Forças Armadas Brasileiras, pois a cidade que nasceu de um pequeno forte é hoje uma das maiores bases militares instaladas na região em nome da paranoia nacional sobre uma eminente invasão da Amazônia por forças estrangeiras. Viajei dia 27 de setembro passado. Antes de pegar o avião estudei e fiz minha lição de casa. Creio que isso é fundamental para melhor degustação da viagem e compreensão do povo que vamos visitar. Sabemos que estudar pelo Google é bastante superficial, mas a ferramenta oferece links para nos aprofundarmos no tema, embora não seja meu objetivo escrever um trabalho acadêmico e, sim, apenas compartilhar desta experiência única que é viajar pelas profundezas da Amazônia brasileira. Eu já tinha vivido em várias regiões da Amazônia em Mato Grosso, em Rondônia e no Acre. Também já estive em Manaus, mas jamais sonhei em alcançar São Gabriel pela dificuldade logística. Eu moro atualmente em Sorocaba, uma cidade industrial no interior do Estado de São Paulo, na região Sudeste, a mais rica na desigual distribuição de riquezas no Brasil. Para pegar o avião tive que viajar 100 km até Campinas onde embarquei num voo noturno da companhia aérea Azul partindo do Aeroporto de Viracopos até Manaus, a capital do Estado do Amazonas. São três horas de voo em um Boeing e uma hora a menos no fuso horário. Então saí às 23h de Campinas desembarquei a 1h da manhã em Manaus. No mesmo dia eu pegaria uma aeronave menor, às 10h, para pousar em SGC às 11h45. Fosse um voo direto, a viagem demoraria em torno de 4 horas, mas gastamos 3 horas até Manaus e outras duas horas até SGC depois de passar a noite em claro no Aeroporto amazonense. Existem outras formas de chegar à cidade de avião, mas esta é a mais econômica, pois comprando bilhetes de diferentes companhias o custo pode triplicar de valor. Outra opção seria voar até Manaus e de lá tomar uma embarcação que pode levar 3 ou 4 dias subindo o caudaloso rio Negro. É claro que a viagem fluvial seria bem mais proveitosa, mas como ainda não existem 100% de segurança por conta das variações do novo coronavírus, é mais prudente encurtar a viagem. O Rio Negro é um dos três mais importantes afluentes do Rio Amazonas, em sua margem esquerda, e um dos 10 maiores rios do mundo. O Amazonas é o segundo maior do mundo em extensão territorial e o maior em volume de água. Nasce no Peru, ao Norte da América do Sul e desce da Cordilheira dos Andes rumo ao Atlântico percorrendo 6.568 km de florestas tropicais. Tem mais de 1 mil afluentes e seus três maiores afluentes – Madeira, Negro e Japurá, estão entre os dez maiores rios do mundo. Juntos, estes afluentes compõem a Bacia Amazônica, a maior bacia hidrográfica do mundo, com mais de 7 milhões de quilômetros quadrados, um recurso natural responsável por cerca de um quinto do fluxo fluvial total do mundo ou seja, detém a 20% da água doce líquida do Planeta. Nestes números os militares brasileiros fundamentam seus argumentos para a eterna paranoia da cobiça internacional sobre os recursos naturais da floresta amazônica. Uma paranoia que vem desde que o Brasil proclamou sua independência e criou seu próprio império em 1822. Por volta de 1850, o imperador Dom Pedro I contratou o Barão de Mauá, maior empreiteiro do império, para fundar uma companhia de navegação à vapor e explorar a região, devido à uma tese que vinha sendo defendida pelos estadunidenses de que o rio Amazonas seria uma extensão do rio Mississipi, segundo constatavam por coordenadas geográficas. Graças a esta tese o imperador brasileiro impulsionou a construção de fortes na fronteira e, consequentemente, viabilizou a entrada e permanência dos exploradores brancos para a povoação das margens dos rios. A grande aldeia Desde as primeiras incursões dos portugueses para aprisionar, catequisar e escravizar os povos originários deste pedaço da América do Sul até a construção do forte de São Gabriel foram consumidos mais de cem anos. Este é o vácuo da história que ainda pode ser estudado. Mas, é certo que este tempo todo foi gasto na guerra contra os então chamados indígenas, uma palavra que está sendo banida do vocabulário pelas organizações que buscam elevar a autoestima e fortalecer a identidade dos povos nativos do Brasil. Os povos encontrados no Brasil quando os portugueses desembarcaram no litoral da Bahia, em 22 de abril de 1500, foram chamados de índios porque os navegadores acharam que tinham atracado em alguma praia da Índia. A frota partira de Lisboa meses antes em busca de uma rota alternativa para alcançar o Oriente, mas foi desviada por uma corrente marítima no Cabo da Boa Esperança (no Sul da África) e acabou descobrindo o Brasil, segundo a história oficial. Dificilmente o termo indígena será esquecido em curto prazo, mas dou aqui a minha contribuição, usando apenas a denominação povos originários. Desta forma, o que chama a atenção em São Gabriel da Cachoeira é a bravura com que preservam sua identidade através de seus costumes e idiomas, apesar dos mais de 300 anos de contato com os estrangeiros e de opressão. SGC é o município brasileiro que concentra o maior número de etnias e idiomas de povos originários. Quando chegaram à região em 1639, os religiosos encontraram algo em torno de 23 diferentes povos que hoje representam pelo menos 90% dos habitantes locais, como Arapaço, Baniwa, Barasana, Baré, Desana, Hupda, Karapanã, Kubeo, Kuripako, Makuna, Miriti-tapuya, Nadob, Pira-tapuya, Siriano, Tariano, Tukano, Tuyuka, Wanana, Werekena e Yanomami. A cidade é uma das raras que têm mais de um idioma oficial. Aqui falam oficialmente, além do português, o HYPERLINK "https://pt.wikipedia.org/wiki/Nheengatu" \o "Nheengatu" nheengatu, o HYPERLINK "https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_tucana" \o "Língua tucana" tucano e o HYPERLINK "https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_baniua" \o "Língua baniua" baníua, Também há um projeto para incluir a língua ianomâmi. Outros cinco municípios brasileiros têm algum idioma indígena como segunda língua oficial. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, órgão do governo brasileiro, 72% da população local são bilíngues e muitos deles poliglotas. Trata-se de um importante laboratório para as ciências humanas e biológicas. É frequente a presença de cientistas do mundo todo circulando por suas ruas e navegando em seus rios. Eles são tão óbvios que se destacam na multidão por seus notebooks e câmeras sofisticadas. Querem ver de perto e viver a vida das quatrocentas pequenas comunidades que vivem em aldeias. Esta curiosidade gerou o segmento do turismo étnico ou etnoturismo. Alguns setores da política brasileira espalham que muitos destes cientistas são biopiratas que roubam os conhecimentos tradicionais dos povos para uso nas indústrias farmacêuticas. As comunidades estão distribuídas pela zona urbana da sede, no núcleo urbano do rio Iauaretê e ao longo de rios como o Uaupés, o Içana, o Xié, o Tiquié e outros que compõem a imensa bacia do rio Negro. No centro de São Gabriel temos o retrato exato de como seria a população brasileira sem a imigração em massa de europeus e asiáticos e o tráfico de africanos escravizados por mais de três séculos. Os povos originários do nosso país têm a mesma cara e a cor que a de seus vizinhos e dos demais povos originários das Américas. O Forte e a Base Millitar E como vivem estes povos? Do mesmo modo que os brasileiros de pequenas cidades do interior. Da agricultura familiar. Uma feira livre é estendida numa rua para a venda de seus produtos e outras mercadorias que inclui roupas e objetos de cozinha e até ferramentas. Além da agricultura e do comércio, na cidade restam dois modos de ganhar a vida: a pesca artesanal ou o engajamento nas Forças Armadas. A paranoia brasileira em relação a supostas ameaças de invasão da Amazônia, desde a era colonial, tornou São Gabriel numa das cidades brasileiras mais fortificadas. Aqui estão sediadas a 2ª Brigada de Infantaria de Selva; o 5º Comando de Fronteira Rio Negro; HYPERLINK "https://pt.wikipedia.org/wiki/Comando_de_Fronteira_Rio_Negro_e_5%C2%BA_Batalh%C3%A3o_de_Infantaria_de_Selva" \o "Comando de Fronteira Rio Negro e 5º Batalhão de Infantaria de Selva" o 5º Batalhão de Infantaria de Selva; a 21ª Companhia de Engenharia de Construção; o Destacamento do Controle do Espaço Aéreo de São Gabriel da Cachoeira; o Destacamento de Aeronáutica de São Gabriel da Cachoeira; o Destacamento da Comissão de Aeroportos da Região Amazônica; e o Destacamento da Capitania dos Portos da Amazônia Ocidental. Exército, Marinha e Aeronáutica têm representação na cidade. Ou seja, desde aquele forte erguido no século XVII o Brasil transformou a cidade inteira de São Gabriel numa base militar. E que fim levou o Forte de São Gabriel? Seus últimos escombros, um conjunto de blocos de pedra e argila em forma de uma ferradura, estão ocupados pela Companhia de Agua e Saneamento do Estado do Amazonas. Ironicamente, embora cercada pelo maior reservatório de água doce do mundo, a cidade não tem água tratada suficiente para toda a população e milhares de moradores abastecem suas casas com água transportada em baldes de chafarizes instalados nas ruas. Quando vi os escombros do forte que deu origem à cidade e hoje abriga uma empresa pública negligente fiquei a pensar no tanto de nativos que foram usados como escravos na edificação que, afinal, foi ao chão sem nunca ter travado uma batalha com forças estrangeiras, a não ser contra o próprio povo que a construiu. Toda a construção do forte foi cercada por polêmicas e equívocos segundo as correspondências trocadas em diferentes épocas. Aquele, na verdade, era o segundo forte construído depois que um primeiro foi considerado muito frágil para suportar os espanhóis. O engenheiro militar alemão Phillip Sturm foi responsável pela obra polêmica e muito contestada desde o começo. A construção iniciou-se em janeiro de 1763 e em julho o engenheiro relatava que lhe faltavam papel e tinta para desenhar a planta e o perfil da obra. "No que respeita à formadura desta fortaleza, conforme a primeira planta que enviei a V. Exa. mudei inteiramente aquela primeira ideia da estrela, no qual apliquei quatro baluartes, proporcionados e regulados para o pequeno terreno e força da guarnição que a defenda. Tudo vai ser feito em boas madeiras em que tenho especial cuidado. Não remeto por ora a V. Exa. a planta e o perfil desta obra, por falta de tudo o necessário, tanto papel como tinta." . Em 1775 teve que ser reconstruído em pedra, porque o material utilizado – madeira e barro - estava totalmente deteriorado. – apenas 7 anos depois de concluída a obra, o forte já estava imprestável. Em 1786 um naturalista brasileiro chamado Alexandre Rodrigues Ferreira desenhou e descreveu a nova fortificação: "O que é ela verdadeiramente, é um reduto, construído de pedra e barro, com dois meio baluartes na frente, e nas cortinas que o fecham pelos lados e pela retaguarda, guarnece-o exteriormente um tal ou qual fosso que o não circunvala, mas cinge o lado da frente para o rio, e o da povoação. A parede da porta é a cortina da frente. Contei 10 peças de ferro montadas nas suas carretas, a saber: 6 de calibre 4 e 4 de calibre de meio. Há dentro dele um quartel para a guarnição, um parque d'armas e mais apetrechos de guerra. Uma pequena casa de pólvora, um calabouço, etc. E todas estas casas, excetuando-se a da pólvora, são cobertas de palha Mas a obra desagradou ao governador da Capitania do Rio Negro, que expôs todo o sentimento racista sempre predominante no Brasil desde tempos coloniais: "As suas guarnições [são] fracas em dois sentidos, porque são diminutas e compostas pela maior parte de muito maus soldados do país, uns que são puramente índios, outros extração ou mistura deles, gente naturalmente fugitiva e indolente, [com] falta de honra, de experiência, de capacidade necessária para uma defesa gloriosa. A informação considerada mais detalhada sobre o forte de São Gabriel é de 1839, feita pelo militar, geógrafo e historiador português Antônio Monteiro Baena. "É de figura pentagonal irregular, cujo maior lado, que defronta com o rio, é uma cortina, que prende dois meio-baluartes; no meio está a porta, que simultaneamente serve ao forte e ao quartel, o qual com o calabouço, corpo da guarda e armaria abraça toda a cortina. Os lados menores não têm flanqueamento, e são uma singela parede de pedra e argila, que é o material de toda a fortificação. Falta-lhe o fosso, esplanada e obras exteriores; tem 16 canhoneiras para calibre inferior ao mediano e portanto incapazes de contrabater. O estado das peças, das carretas e de tudo que são anexas ao forte, como o quartel, armazéns e ribeira, é lastimoso”. Os relatos vão se aproximando até os dias atuais. Na década de 1930 as pedras que restavam de suas muralhas foram reaproveitadas para a construção de uma igreja, do hospital e da Missão dos Salesianos. Tudo o que resta hoje são as pedras de seus alicerces que, faltando um dos lados do pentágono, ficou em formato de ferradura. Suas peças de artilharia tornaram-se em objetos ornamentais, quatro delas instaladas na frente do Fórum da cidade e uma quinta na entrada do Comando de Fronteira Rio Negro/5º Batalhão de Infantaria de Selva, também chamado de Batalhão Forte São Gabriel. As demais peças estão desaparecidas. Os indigenas estão articulando suas lutas, que não têm sido poucas numa época em que o Brasil passa por um período político tumultuado com um governo que põe toda sua força política para destruir o meio ambiente e retirar direitos adquiridos desde a Constituição de 1988. '

sábado, 23 de junho de 2018

 ENITA VII
HOMENS SEM QUALIDADES



Manhã ensolarada tranquila quando se ouve o roncar de um carro. todos da aldeia saem de suas casas para ver quem chegou. É o carro da funai, disse Pedro uns dos cacique da aldeia.(Há vários cacique na aldeia. Todos os chefes de família são caciques) Aos poucos todos vão caminhando em direção do carro. Papo vem, papo vai... Ao passar do dia os caciques chegam na aldeia principal. (Serraria) As crianças correm, as mulheres preparando farinha outras tomando banho. Os dois homem da funai Roberto e Bastião.  Assim se apresentou Bastião. Bastião estava sempre de olhos desconfiados olhando para todos os lados. Sempre tentando se aproximar de Enita. Mas quando Enita sentia a aproximação ela dava um jeito de se afastar. Enita já sabia o proposito dos dois. E eles sabiam que a maioria ali não concordavam com a proposta deles. A noite os caciques e suas famílias se reuniram junto com os dois homem. Então Bastião começou a falar em voz alta. Seguinte moçada, nós estamos aqui somos da funai e o nosso proposito é que vocês mudem de aldeia e vão lá para área indígena de Rio branco. Vocês sabem que lá tem muitos parentes makurap. A área aqui é muito grande e vocês sabem que aqui tem muita madeira, e a funai não tem como tirar os madeireiros. Eles não pagam pra vocês. Eles são perigosos. E é perigosos pra vocês continuarem aqui. Cacique Petaro o mais velho da aldeia falou. Nós não queremos ir, nós temos nossas casas aqui, nossos roças e cemitérios. E você ai?! apontou com o dedo em direção para Enita. O que você acha? Enita respondeu. Eu não acho nada... Roberto então falou. Pensem bem gente! Amanhã conversamos. E todos se recolheram .  Roberto e Bastião foram dormir no barracão construído pelos madeireiros.
A madrugada já ia alta e a lua já se punha atras da floresta, quando vários tiros foram disparados pelos madeireiros para o alto.  Ao amanhecer alguns madeireiros chegaram na aldea com seus rádios de pilha, alguns bêbados e gritando. Eita índios gente boa! Nós vamos cortar madeira e vamos dividir tudo direitinho! E davam gargalhadas altas. Tirou o revolver da cintura e foi andando em direção ao centro da aldea, deu um tiro para alto e apontou o revolver para o chão. E gritou madeira!!!

ÁREA INDÍGENA MEKENS (RO)  ELES ENFRENTAM OS MADEIREIROS ATE HOJE.

HISTORIA VERÍDICA  1990
Todos os direitos reservados 
Autora Iracema Caingang







sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

ENITA III CHÃO RUBRO

O ancião Makurap abre sua mão direita e torna a fechá-la.
Em 1989, na terra indígena dos Mekens, no Sul de Rondônia, ele diz.


-Olha, parente, como essa terra é bonita!

E espreme um punhado de terra fofa e vermelha fazendo escorrer entre os dedos um líquido sangrento como suco de açaí. Terra rica em nutrientes para os cafezais, a soja, o cacau, a pimenta-do-reino, lavouras que começam a mudar a paisagem do Sul de Rondônia no fim dos 1980.

- A Funai quer que a gente vá embora daqui. Eu não quero ir. Nós temos outros parentes Makurap morando longe, em outra reserva, mas eu quero ficar. Até aonde me lembro, da memória dos meus avós, todos nós nascemos aqui. Eu falo para meus filhos. Não vão embora, fiquem. A Funai diz que vai ser bom, mas o que eles querem é ficar com as nossas terras. Eu falo com todos para que não abandonem. Veja, Enita, essa terra não precisa do adubo que os fazendeiros usam, tudo que plantamos cresce muito e sadio. A Funai diz para vendermos as terras aos madeireiros, mas eu não quero vender nossas terras, eu quero ficar.

Enita respira fundo e pensa nas palavras para encorajar o velho. Lembra de uma história que ouviu em suas andanças pela região.

- Ouvi dizer que uns cientistas russos andaram pesquisando a terra e concluíram que é mais rica do que a mais rica das terras férteis de todos os países da União Soviética, tão equilibrada é a quantidade de nitrogênio, fosfato e outros minerais necessários para a agricultura. É mais valiosa que o ouro, comentou Enita.

O ancião Makurap sentou-se em um toco de árvore serrada pelos madeireiros e Enita continuou em pé admirando o horizonte azul, branco e rosa das nuvens recebendo os últimos raios de sol.

- O Senhor se lembra daquele casal de antropólogos que veio num avião?

-Lembro.

-Eles assinaram um documento para a FUNAI afirmando que aqui não há indígenas, que esta área não precisa ser demarcada.

-Você leu o documento, Enita?
-Voce sabe o nome deles?
-Eu sei sim! O nome deles...
-São bem conceituados, famosos.


-Eu li, sim! Dizem que as madeireiras podem continuar a derrubada, autorizando até as estrangeiras, mesmo que vocês não queiram. Depois que a madeira acabar, as terras serão vendidas para as fazendas.

-Então é por isso que estão nos ameaçando de jogar bombas de avião para deixá-los entrar.

-Quem disse isso?

-Os madeireiros. Se a gente não os deixar entrar, vão matar a gente.

-O documento diz que aqui não vive mais do que meia dúzia de pessoas e sem traços de cultura indígena.

O velho voltou a espremer na mão direita a terra rubra e estendeu o braço mirando a estrada onde roncava um caminhão de toras.

-Eles querem ver jorrar sangue.

Ambos cruzaram os braços, entreolharam-se e ficaram a ouvir, ao longe, o motor do caminhão que ainda zunia enquanto as sombras da noite baixavam sobre a aldeia. Um acauã invisível entoou seu canto lúgubre. Enita estremeceu.

- Vamos jantar, disse o ancião.
Autora Iracema forte Caingang
Todos os direitos reservados

domingo, 29 de maio de 2016

A MENINA PAGÃ I

Seria cinco horas da manhã, a julgar pelas estrelas e o movimento das meninas do internato. Elas se levantavam e arrumavam-se nos banheiros para ir às orações na capela.




Josie segue em direção a umas das janelas embaçadas de neblinas do edifício secular e observa o jardim repleto de flores brancas, apagando com as mãos o suor da vidraça.



Entre os dois dormitórios há uma janela de madeira bruta, arrancada de um jequitibá, que, de tão grande, mais parece uma pequena porta. Dali pode-se observar a capela. E lá vai Josie, na escuridão da madrugada, tateando pelas paredes, Segue em direção ao altar por um tapete vermelho, sentindo-se vigiada por uma minúscula luz verde lançada por um abajur. “Esta luz significa a presença de Deus”, conforta-se, inocente.



Josie abre a porta que dá para o jardim proibido, senta-se no banco de ferro branco com seu poncho azul e vermelho, a touca multicolorida na cabeça, sente o vento gelado passar sobre sua face e arrepia-se, como se tocada por um espírito maligno como diziam as religiosas daquela casa abençoada.



Mas, por alguns minutos, nada importa. Josie quer ficar admirando as rosas. As flores estão com as pétalas cheias de orvalho. Os beija-flores chegam com os primeiros raios de sol, sem perceber a presença de Josie,com o qu paralisada e encantada com o quadro movimentado.



O coral das meninas vem aos seus ouvidos. O padre já começou as orações. Josie se assusta, olha a estátua de gesso de nossa Senhora que fica bem no centro do jardim, “O que fazer”, pensa Josie.



Ela segue devagar até umas das portas do jardim que, para a sua surpresa, está aberta. Sem que ninguém perceba, entra passando pela banca, uma sala reservada para estudos que mais parece uma biblioteca, e segue para o internato. Sobe as escadas rumo aos refeitórios das irmãs onde a mesa está posta, repleta de guloseimas.



Ela não resiste e pega algumas bolachas de chocolate. Curiosa, como todas as crianças, vai até um dos quartos das freiras, entra e se surpreende com a irmã Bezerra, ela que passa o dia cuidando das meninas da escola, A irmã se assusta, pois está com os seios de fora, vestindo apenas suas cerolas brancas e enormes. Josie corre, se tranca no banheiro e começa a rir.



Batem na porta do banheiro.



- Josie, vamos abre a porta ou vai ficar sem café.



Josie abre a porta sem saber o que lhe espera, pois Alcione, também aluna da escola, a convida a seguir para o dormitório. Ela é a aluna mais antiga, foi criada desde bebê pelas irmãs, é uma menina negra, gorda e muito bonita.



- Vamos Josie tira a roupa e entre no banheiro.



Assustada ela obedece, Alcione, com um cinto de couro, começa bater nas suas costas e pernas Depois da surra ela coloca seu avental quadriculado, vestimenta diária de todas as meninas. Alcione a tranca no banheiro por todo o dia, sem alimentação. Só à noite, depois que todas as meninas foram dormir, a imã Bezerra a leva para a enfermaria,



Josie passa a noite toda aos cuidados da irmã enfermeira, mas como se não bastasse a surra ela pega uma gripe muito forte e fica duas semanas internada com os lábios e as vias respiratórias feridas, alimentando-se por um canudo.



Josie acreditava que Deus não gostou do que ela havia feito e por isso estava tão doente. A irmã Lima, outra enfermeira, passava a noite na enfermaria. Sua cama era toda cercada por um lençol branco, pois não podíamos vê-la dormindo.



A freira tosou os cabelos de Josie, deixando-a com o couro cabeludo pelado. “Agora está bonita não parece uma endiabrada, mas vai passar a noite chupando o rabo do diabo”.



Josie tinha muito medo do diabo, mas nunca imaginou que apanharia tanto. Certa vez ficou de castigo, ajoelhada sobre o milho, por duas horas. Foi num domingo à tarde no retiro das irmãs que fica nas montanhas de Friburgo. As meninas podiam ficar livres, subir nos pés de pêssegos e jabuticabas. Era uma farra. Do alto das árvores viam o riacho de águas claras e a deliciosa piscina. Josie e quatro meninas mergulharam na piscina, também proibida, e aí o castigo.



Josie pensa na dor do joelho, fecha os olhos e dorme, mas sonha com os anjos de cabelos encaracolados e roupas compridas. Alguns são verde e azul e outros brancos. As asas ficam batendo em volta de sua cama, protegendo-a do mal





















terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Descadeirada

Há anos me prometo uma vida mais acomodada, tanto que neste 2013 hei de ter uma cadeira de balanço, o banco da velha dona de casa, cansada de estar em pé amassando alho, , descancando cebolas, descamando peixe e pintando uns panos enquadrados em paus. Minhas telas não seriam tão teimosas, fossem pintadas comigo sentada.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

ENITA III CHÃO RUBRO


O ancião Makurap abre sua mão direita e torna a fechá-la.
Em 1989, na terra indígena dos Mekens, no Sul de Rondônia, ele diz.


-Olha, parente, como essa terra é bonita!

E espreme um punhado de terra fofa e vermelha fazendo escorrer entre os dedos um líquido sangrento como suco de açaí. Terra rica em nutrientes para os cafezais, a soja, o cacau, a pimenta-do-reino, lavouras que começam a mudar a paisagem do Sul de Rondônia no fim dos 1980.

- A Funai quer que a gente vá embora daqui. Eu não quero ir. Nós temos outros parentes Makurap morando longe, em outra reserva, mas eu quero ficar. Até aonde me lembro, da memória dos meus avós, todos nós nascemos aqui. Eu falo para meus filhos. Não vão embora, fiquem. A Funai diz que vai ser bom, mas o que eles querem é ficar com as nossas terras. Eu falo com todos para que não abandonem. Veja, Enita, essa terra não precisa do adubo que os fazendeiros usam, tudo que plantamos cresce muito e sadio. A Funai diz para vendermos as terras aos madeireiros, mas eu não quero vender nossas terras, eu quero ficar.

Enita respira fundo e pensa nas palavras para encorajar o velho. Lembra de uma história que ouviu em suas andanças pela região.

- Ouvi dizer que uns cientistas russos andaram pesquisando a terra e concluíram que é mais rica do que a mais rica das terras férteis de todos os países da União Soviética, tão equilibrada é a quantidade de nitrogênio, fosfato e outros minerais necessários para a agricultura. É mais valiosa que o ouro, comentou Enita.

O ancião Makurap sentou-se em um toco de árvore serrada pelos madeireiros e Enita continuou em pé admirando o horizonte azul, branco e rosa das nuvens recebendo os últimos raios de sol.

- O Senhor se lembra daquele casal de antropólogos que veio num avião?

-Lembro.

-Eles assinaram um documento para a FUNAI afirmando que aqui não há indígenas, que esta área não precisa ser demarcada.

-Você leu o documento, Enita?
-Voce sabe o nome deles?
-Eu sei sim! O nome deles...
-São bem conceituados, famosos.


-Eu li, sim! Dizem que as madeireiras podem continuar a derrubada, autorizando até as estrangeiras, mesmo que vocês não queiram. Depois que a madeira acabar, as terras serão vendidas para as fazendas.

-Então é por isso que estão nos ameaçando de jogar bombas de avião para deixá-los entrar.

-Quem disse isso?

-Os madeireiros. Se a gente não os deixar entrar, vão matar a gente.

-O documento diz que aqui não vive mais do que meia dúzia de pessoas e sem traços de cultura indígena.

O velho voltou a espremer na mão direita a terra rubra e estendeu o braço mirando a estrada onde roncava um caminhão de toras.

-Eles querem ver jorrar sangue.

Ambos cruzaram os braços, entreolharam-se e ficaram a ouvir, ao longe, o motor do caminhão que ainda zunia enquanto as sombras da noite baixavam sobre a aldeia. Um acauã invisível entoou seu canto lúgubre. Enita estremeceu.

- Vamos jantar, disse o ancião.
Autora Iracema forte Caingang
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