sábado, 2 de outubro de 2010

Enita IV CRIME SEM CASTIGO

  Rondonia 1989
Enita acorda suada. Embora fosse a única hóspede do alojamento das freiras e recebesse o conforto de um bom ventilador de parede, não resistiu ao calor calcinante de Cacoal. Mas, o dia ainda estava por esquentar. Mesmo que o sol se afastasse e caísse neve sobre Cacoal os acontecimentos deste dia vão esquentar o noticiário dos botecos, barbearias e de alguns jornais brasileiros e estrangeiros.

Enita vai à varanda para visitar o dia, mas a contemplação dura apenas o tempo de um suspiro. Logo sua manhã é invadida por uma multidão de índios feridos a bala, alguns carregados nos ombros, outros apoiados por dois homens, muitos arrastando as pernas. Um índio suruí, com um braço perfurado a bala e o tórax rasgado a faca, mal consegue balbuciar. Um zoró e um cinta-larga eram amparados apresentando marcas de tiros nas costas e nas pernas.

- Foi uma cilada. Estávamos em uma reunião na aldeia indígena Zoró para discutir a invasão das madeireiras e fazendeiros em nossas terras, relatou um deles.

Esta reunião entre suruís, zorós e cinta-largas foi um fato histórico. Eram povos guerreiros e inimigos, odiavam-se, se temiam, mas se respeitavam. Decidiram se aliar quando descobriram que grandes fazendas, depois de corroer suas terras pelas bordas, agora os ameaçavam de expulsão e montavam milícias armadas para intimidá-los. Foi no final de uma reunião da aliança que o confronto eclodiu.

-Estávamos vindo de Toyota quando um fazendeiro com mais seis empregados nos fecharam na estrada e começaram a atirar, relata um dos líderes.

- Quantos morreram

- Se não fosse minha metralhadora não haveria nenhum índio vivo.

Um indígena cinta-larga mostra sua FAL, arma militar muito usada em guerras civis e nos morros cariocas.

- Quando eles começaram a atirar eu dei cobertura para que os parentes fugissem. Todos escaparam.

- Quando eu pulei do carro metralhando alguns deles fugiram, outros vieram atrás nos perseguindo. A arma é nossa única garantia enquanto a Funai adormece, ajudando a roubar nossa madeira

Dois dias depois Enita estava na aldeia suruí, quando um jovem indígena deu a notícia.

-Andamos todas as nossas terras, procurando um parente mais velho que estava com a gente no dia da emboscada. O achamos dentro de um saco de farinha, esquartejado.

O assassinato de Aiminé foi denunciado ao Ministério Público Federal e à Defensoria Pública, mas os criminosos nunca foram capturados, embora bastante conhecidos.

Autora Iracema forte Caingang
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