segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Enita V Troncos


Enita era um perigo para os fazendeiros. O que via escrevia. Até o que ouvia, tornava-se letra. Foi aquele boom que a tornou uma das testemunhas mais perigosas do processo que nunca se encerrou. Quem arrancou uma orelha do jovem makurap com um tiro de cartucheira?
Um avião do Ibama poderia ter filmado a cena, pois fazia voos rasantes provocadores sobre a aldeia dos Mequens, no Sul de Rondônia.
Era um dia como outro, nenhuma novidade neste tiroteio. Os agentes federais vinham a uma batida delatada, pois os madeireiros estavam alertados por fontes adocicadas na propina.
Trancaram a estrada com troncos monumentais e mandaram bala. A orelha do garoto makurap é prova material do crime. Foi o que viu, ouviu ,e pode escrever. Não digam que ela foi dormir na boa, achando tudo normal, aquele dia estava apenas começando.

Autora Iracema forte Caingang
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sábado, 2 de outubro de 2010

Enita IV CRIME SEM CASTIGO

  Rondonia 1989
Enita acorda suada. Embora fosse a única hóspede do alojamento das freiras e recebesse o conforto de um bom ventilador de parede, não resistiu ao calor calcinante de Cacoal. Mas, o dia ainda estava por esquentar. Mesmo que o sol se afastasse e caísse neve sobre Cacoal os acontecimentos deste dia vão esquentar o noticiário dos botecos, barbearias e de alguns jornais brasileiros e estrangeiros.

Enita vai à varanda para visitar o dia, mas a contemplação dura apenas o tempo de um suspiro. Logo sua manhã é invadida por uma multidão de índios feridos a bala, alguns carregados nos ombros, outros apoiados por dois homens, muitos arrastando as pernas. Um índio suruí, com um braço perfurado a bala e o tórax rasgado a faca, mal consegue balbuciar. Um zoró e um cinta-larga eram amparados apresentando marcas de tiros nas costas e nas pernas.

- Foi uma cilada. Estávamos em uma reunião na aldeia indígena Zoró para discutir a invasão das madeireiras e fazendeiros em nossas terras, relatou um deles.

Esta reunião entre suruís, zorós e cinta-largas foi um fato histórico. Eram povos guerreiros e inimigos, odiavam-se, se temiam, mas se respeitavam. Decidiram se aliar quando descobriram que grandes fazendas, depois de corroer suas terras pelas bordas, agora os ameaçavam de expulsão e montavam milícias armadas para intimidá-los. Foi no final de uma reunião da aliança que o confronto eclodiu.

-Estávamos vindo de Toyota quando um fazendeiro com mais seis empregados nos fecharam na estrada e começaram a atirar, relata um dos líderes.

- Quantos morreram

- Se não fosse minha metralhadora não haveria nenhum índio vivo.

Um indígena cinta-larga mostra sua FAL, arma militar muito usada em guerras civis e nos morros cariocas.

- Quando eles começaram a atirar eu dei cobertura para que os parentes fugissem. Todos escaparam.

- Quando eu pulei do carro metralhando alguns deles fugiram, outros vieram atrás nos perseguindo. A arma é nossa única garantia enquanto a Funai adormece, ajudando a roubar nossa madeira

Dois dias depois Enita estava na aldeia suruí, quando um jovem indígena deu a notícia.

-Andamos todas as nossas terras, procurando um parente mais velho que estava com a gente no dia da emboscada. O achamos dentro de um saco de farinha, esquartejado.

O assassinato de Aiminé foi denunciado ao Ministério Público Federal e à Defensoria Pública, mas os criminosos nunca foram capturados, embora bastante conhecidos.

Autora Iracema forte Caingang
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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

ENITA III CHÃO RUBRO


O ancião Makurap abre sua mão direita e torna a fechá-la.
Em 1989, na terra indígena dos Mekens, no Sul de Rondônia, ele diz.


-Olha, parente, como essa terra é bonita!

E espreme um punhado de terra fofa e vermelha fazendo escorrer entre os dedos um líquido sangrento como suco de açaí. Terra rica em nutrientes para os cafezais, a soja, o cacau, a pimenta-do-reino, lavouras que começam a mudar a paisagem do Sul de Rondônia no fim dos 1980.

- A Funai quer que a gente vá embora daqui. Eu não quero ir. Nós temos outros parentes Makurap morando longe, em outra reserva, mas eu quero ficar. Até aonde me lembro, da memória dos meus avós, todos nós nascemos aqui. Eu falo para meus filhos. Não vão embora, fiquem. A Funai diz que vai ser bom, mas o que eles querem é ficar com as nossas terras. Eu falo com todos para que não abandonem. Veja, Enita, essa terra não precisa do adubo que os fazendeiros usam, tudo que plantamos cresce muito e sadio. A Funai diz para vendermos as terras aos madeireiros, mas eu não quero vender nossas terras, eu quero ficar.

Enita respira fundo e pensa nas palavras para encorajar o velho. Lembra de uma história que ouviu em suas andanças pela região.

- Ouvi dizer que uns cientistas russos andaram pesquisando a terra e concluíram que é mais rica do que a mais rica das terras férteis de todos os países da União Soviética, tão equilibrada é a quantidade de nitrogênio, fosfato e outros minerais necessários para a agricultura. É mais valiosa que o ouro, comentou Enita.

O ancião Makurap sentou-se em um toco de árvore serrada pelos madeireiros e Enita continuou em pé admirando o horizonte azul, branco e rosa das nuvens recebendo os últimos raios de sol.

- O Senhor se lembra daquele casal de antropólogos que veio num avião?

-Lembro.

-Eles assinaram um documento para a FUNAI afirmando que aqui não há indígenas, que esta área não precisa ser demarcada.

-Você leu o documento, Enita?
-Voce sabe o nome deles?
-Eu sei sim! O nome deles...
-São bem conceituados, famosos.


-Eu li, sim! Dizem que as madeireiras podem continuar a derrubada, autorizando até as estrangeiras, mesmo que vocês não queiram. Depois que a madeira acabar, as terras serão vendidas para as fazendas.

-Então é por isso que estão nos ameaçando de jogar bombas de avião para deixá-los entrar.

-Quem disse isso?

-Os madeireiros. Se a gente não os deixar entrar, vão matar a gente.

-O documento diz que aqui não vive mais do que meia dúzia de pessoas e sem traços de cultura indígena.

O velho voltou a espremer na mão direita a terra rubra e estendeu o braço mirando a estrada onde roncava um caminhão de toras.

-Eles querem ver jorrar sangue.

Ambos cruzaram os braços, entreolharam-se e ficaram a ouvir, ao longe, o motor do caminhão que ainda zunia enquanto as sombras da noite baixavam sobre a aldeia. Um acauã invisível entoou seu canto lúgubre. Enita estremeceu.

- Vamos jantar, disse o ancião.
Autora Iracema forte Caingang
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